por André Luís Rodrigues
Atire a primeira câmera o fotógrafo (no caso fotojornalista) que nunca montou ou aproveitou a montagem de uma situação. E justamente nesse sentido surge uma questão: até que ponto o fotojornalista pode ou deve interagir com a situação a ser fotografada. Assunto interessante, pois coloca em questão a ética e a postura profissional. Veja alguns exemplos e a opinião de alguns profissionais sobre o tema.
Em fotojornalismo tende-se a acreditar na
verossimilhança e o relato do real. A fotografia, em seu conceito, está extremamente atrelada a isso. No entanto, teóricos debatem o tema, pois é corroborado com os inúmeros casos de manipulação fotográfica (e da informação), direcionamentos, encenação, entre outros.
Como o tema é encenação e montagem de fotos, podemos referir-se a duas imagens que (atualmente) ganharam destaque por serem tidas como encenadas.
“O Beijo”, de Robert Doisneau; e a
“Morte de um miliciano”, de Robert Capa. No caso de Doisneau, ainda passa, ele praticamente foi um fotógrafo de publicidade, diferentemente dos fotógrafos de guerra que ficam tão à mercê quantos aos corpos no front. Justamente por isso, na foto de Capa a coisa é mais complica. Ícone da fotografia de guerra registrou o exato momento em que um soldado é abatido.
Há mais exemplos, como a emblemática foto de Joe Rosenthal, no monte Iwo Jima, na qual militares estendem a bandeira americana – a batalha também foi retratada recentemente no cinema, inclusive com foco na encenação do hasteamento da bandeira.
Caso particular – cobertura de passeatas, manifestações e atos
Por questão ilustrativa, vamos aproximar a questão e exemplos. Para estudo de caso, cito uma situação específica. No dia-a-dia, o fotojornalista se depara com trivialidades. Repetições e repetições de fatos. A mesma cena, a mesma fonte, a mesma retórica. Em passeatas e manifestações (que tenho certo gosto de cobrir), observo fotógrafos incitando e, às vezes, inclusive direcionando a montagem de uma foto. É comum ver e ouvir pedidos aos manifestantes para gritarem, se aglomerarem para reforçar a quantidade de pessoas, moverem as bandeiras e faixas, entre outros ardis fotográficos, dignos de fotógrafos que trabalham em eventos sociais.
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| Movimento MST promove ato em 2006. Inserido, porém despercebido. Acompanhar a movimentação com certa "distância" é alternativa |
Até que ponto isso é lícito e aceitável? Quem monta, participa, incita ou encena um fato, mesmo que sutil, está sendo desonesto com o leitor/apreciador da imagem? Pode ser considerada falta de ética profissional? Afinal, passar a informação de forma clara, real (no que a palavra permite) e objetiva, é a proposta inalienável do fotojornalimo.
E a tal “direção” na hora de fotografar vem ganhando força. O fotojornalismo tipo foto posadinha de revista firmou-se no jornal. Fotos posadas, ajustadas, dirigidas, estampam os mais variados gêneros do fotojornalismo e editorias nos jornais – do hard news à geral, do cotidiano ao esporte ao a geral. Cadernos especiais e reportagens compartamentais são mestres na fotografia representativa.
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| Em Curitiba, manifestação dos guardas municipais. O recurso da objetiva facilita estar presente e registrar os fatos sem interferir |
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| A proximidade e o ato fotográfico em si, que já possibilita a pose, não são obstáculos para uma foto natural |
Sarcasticamente falando, seria interessante ver um fotojornalista, numa cobertura de confronto qualquer e no melhor fotojornalismo de araque, pedir: “atire a bomba novamente pra eu fotografar”, ou “dê mais tiros, por favor”, “empilhe mais mortos aqui para realçar a foto”. Surreal!
Artimanhas
Lendas de ardis fotográficos por tempos fizeram parte da cobertura fotográfica. Em fotojornalismo policial, a produção ganhava ares dramáticos. Fotógrafos, em busca da melhor foto para estampar a capa, carregavam suas lanternas, e há quem diga que bonecas, chupetas, dentaduras e afins, também faziam parte do arsenal. Tudo isso para maquiar a cena.
Pose ou encenação
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| Típica foto posada. Isso é direção e/ou encenação? |
Contudo, é preciso salientar a diferença entre encenação e pose. A pose e o retrato fazem parte da linguagem fotográfica e do fotojornalismo respectivamente. Também chamada por figuração é parte do processo de conotação fotográfica. A pose (bem utilizada e em seu contexto) auxilia a representação numa notícia, principalmente as comportamentais.
Uma coisa é publicar uma foto posada, em que a pauta é entrevistar um escritor, uma banda, profissionais e demais agentes, para um reportagem específica. Outra é, num fato/notícia (no caso um acontecimento), pedir para as pessoas posarem na tentativa de reforçar/exaltar uma informação. Contudo, a prática é aceita como possibilidade de representar os personagens que fazem parte do ato - não que isso seja bom.
Opinião profissional
O fotojornalista, atuante em São Paulo e editor do site 28mm,
Henrique Manreza, tem uma opinião bem pertinente. “Como fotojornalista eu não tenho o direito de interagir com o fato, inflamar, ou seja lá o quê, para transformar a foto mais interessante”, destaca. “No fotojornalismo o leitor espera ver a realidade, ou a sua visão daquela realidade, e não que você interfira para ela acontecer.
Paulo Pimenta, fotojornalista que atua na linha de frente do jornal Público PT e edita o blogue Fotopress, em Portugal, destaca que a atitude, principalmente de incitar o público numa manifestação, é prática de “mau jornalismo”. E que se trata de uma questão de ética e deontologia. “Tenho que ter a consciência que ao ir para uma manifestação o meu trabalho é não interferir, alterar, criar algum momento que não seja aquele que lá está a passar-se. Eu não posso pôr as pessoas abanar as bandeirinhas, a gritar, a chorar, para eu tirar a fotografia. Eu tenho que estar o mais ausente/presente possível dos acontecimentos”, opina. “Esse é o meu objetivo tentar dar o máximo de informação sem interferir, é nisto que eu luto e acredito.”
Credibilidade
Encenar, direcionar, instigar ou simplesmente por “pilha” num ato põe em xeque a credibilidade do fotojornalismo. Quem defende isso é o fotógrafo e diretor de defesa corporativa do Sindicato de Jornalistas Profissionais do Paraná (Sindijor-PR), Pedro Serápio.
Profissional gabaritado, com imensa bagagem em todos os contextos da fotografia – desde a pauta mais simples a eventos internacionais, Pedro diz que, no caso do profissional de imagem, a atitude deve ser uma só: a de ser observador e link do acontecimento até o conhecimento da sociedade; simplesmente. “O profissional não deve interferir em nada que possa alterar o curso da história”, reforça. Segundo Pedro, o que passar disso é defesa de interesse do veículo de comunicação e falta de ética mesmo.
Ética e deontologia no Fotojornalismo
Como afirma o teórico Jorge Pedro Sousa, as imagens em certas ocasiões tendem a ter mais força que palavras e consequentemente deveria ser enfatizado o debate sobre ética e deontologia no campo do fotojornalismo.
Falar de ética, como diz Sousa, implica em falar (e analisar) diversas perspectivas. Não somente na discussão da ética na imagem – principalmente no respeito ao fotografado, mas na postura mesmo.
Realmente, ‘perspectivas’ não faltarão. Pode-se dizer que teríamos pormenores não somente ao recurso das encenações, mas também relativas à profissão em si e suas organização como categoria. Afinal, fotojornalista dessa era multimídia, trabalha sobre pressão, cumpre várias pautas e tarefas no mesmo dia e é refém do horário e do sistema jornalístico em si. Contudo, esses elementos não sustentam o pecado de não ser profissional, pois câmera e ‘fotógrafos’ existem aos milhares. Agora, profissional; no sentido de viver disso e ter comprometimento com o jornalismo, isso não é para todos. Pelo menos para quem deseja fazer jornalismo de verdade e sem truques ou gritos de "levanta a cabeça pra eu fotografar"...